quinta-feira, 1 de março de 2012

Meus Favoritos: Travessuras da Menina Má – Mario Vargas Llosa

Se existe uma coisa que nunca sei responder e me sinto encurralada toda vez que preencho um perfil em redes sociais ou mesmo em conversas com quem pouco me conhece é a famosa pergunta: Qual o seu livro favorito?  É sério. Eu simplesmente não consigo ter UM livro favorito! Respondo, sempre brincando que sou libriana e é característica do meu signo ser indecisa... Mas a verdade é que são tantas obras incríveis, tantas histórias inesquecíveis, tanto autores maravilhosos que não acredito que possa eleger um só, dentro dos muitos que já tive oportunidade de ler. Claro, tenho minhas preferências! Tenho o lugar especial na estante para aqueles que são meu xodó. E conseguir conquistar meu coração não é algo assim tão fácil! Eu adoro ler e costumo ler de tudo um pouco e também tenho meus preconceitos literários... Mas, para mim existe o “gostei do livro”, “o adorei o livro”, “o amei o livro” e o “livro que tocou minha alma”. É dessa última categoria que vou falar nessa coluna. São os MEUS FAVORITOS. Que não são poucos. E como acredito muito no poder da literatura de nos fazer sentir, viajar, inspirar e rever conceitos, vou compartilhar essas estórias com vocês. 

Autor: Mario Vargas Llosa

Editora: Alfaguara
ISBN: 8573028084
Ano: 2006
Páginas: 304
Tradutor: Ari Roitman, Paulina Wacht
Sinopse: O peruano Ricardo vê realizado, ainda jovem, o sonho que sempre alimentou - o de viver em Paris. O reencontro com um amor da adolescência o trará de volta à realidade. Lily - inconformista, aventureira e pragmática - o arrastará para fora do pequeno mundo de suas ambições. Ricardo e Lily - ela sempre mudando de nome e de marido - se reencontram várias vezes ao longo da vida, em diferentes cidades do mundo que foram cenários de momentos emblemáticos da História contemporânea. Na Paris revolucionária dos anos 60; na Londres das drogas, da cultura hippie e do amor livre dos anos 70; na Tóquio dos grandes mafiosos dos anos 80; e na Madri em transição política dos anos 90. Assim, ao mesmo tempo em que conta a história de um amor arrebatador, Travessuras da menina má traça um quadro vigoroso das transformações sociais européias e convulsões políticas da América Latina. 

Tem coisas que simplesmente não se explica, não se entende, não se consegue resumir em palavras. Você só sabe que sente. Sabe que existe.  Sabe que te faz agir de forma extraordinária. Estou falando do amor. Esse sentimento tão exaustivamente debatido, narrado e... por que não? Sonhado! Mas existem várias formas de amar e nem todas são como as de contos de fadas. Se por um lado o amor pode ser puro, incondicional, eterno, por outro também pode ser destrutivo. Por que, para os “ladrões” de coração, o amor é uma arma poderosa. Uma grande armadilha. Uma teia que prende suas vontades, desejos, nos deixando completamente vulneráveis, à mercê do outro. E por mais que se possa lutar contra a teia, sair, se desprender ou se jogar em outra, no fim, sempre fica um fio amarrando, segurando, enrolando aos poucos, envolvendo num casulo que aguarda pacientemente pela liberdade que só encontra ao ser correspondido. É disso que esse livro fala: de um amor que dura uma vida inteira, que é capaz das maiores loucuras, que é livre de julgamentos e que é, acima de tudo, irrevogável e devastador.
Comprei esse livro há uns quatro ou cinco anos atrás, em uma viagem a São Paulo. Como de costume, na minha programação, sempre tem que sobrar um tempinho para percorrer as longas fileiras das grandes livrarias. E dei de cara com esse título, que por si só, já chama atenção. Do autor, Mario Vargas Llosa, até então a única coisa que sabia era que tinha se candidatado à presidência do Peru e perdido para Alberto Fujimori. Mas me intriguei com uma pergunta na contracapa: “Qual é a verdadeira face do amor?”
E assim fui apresentada a Ricardo e Lily. Ou se preferirem, “O bom menino” e “a Menina Má”. Uma estória que tem início nos anos 1950, na cidade de Lima, capital do Peru, onde o adolescente Ricardo Somocurcio conhece uma “chilenita” chamada Lily. Naquele verão Ricardito ficou fascinado pela misteriosa chilenita que, tão repentinamente como surgiu em sua vida, desapareceu.  Depois de adulto, ele vai à busca de realizar o sonho de viver em Paris. Trabalhando como tradutor e intérprete de inglês, espanhol e russo na UNESCO, Ricardito leva uma vida pacata e tranquila. Até que o destino traz novamente a chilenita para sua realidade de forma arrebatadora e dá início a uma série de encontros e desencontros inusitados e dolorosos por várias capitais: Paris, Londres, Tóquio e Madri.
A menina má é de longe uma das personagens mais complexas que já tive oportunidade de conhecer. Ela se reinventa a cada aparição, como se fosse uma camaleoa que assumisse qualquer personalidade em prol da sobrevivência. Novos nomes, maridos, vidas, identidades. Às vezes passa a impressão de ser apenas um produto da imaginação obsessiva de Ricardo. Mas ela é real. Uma mulher manipuladora, intensa, imprevisível, interesseira, egoísta, temperamental e indomável que surge como um sopro de felicidade na vida do bom menino para, em seguida abandoná-lo deixando um rastro de destruição. Toda vez é a mesma coisa. O leitor chega a questionar a sanidade de Ricardo. É inexplicável o tipo de amor doentio que sempre aceita essas idas e vindas bruscas, recheadas de mentiras, desprezo e traições. Um ciclo que se repete interminavelmente, alternando momentos de pura paixão e sofrimento absurdo. Uma relação perturbadora, que segue ao longo de quatro décadas e que nos enche de amor e ódio por ambos os personagens.
Ricardo, movido pelo amor e esperança de que dessa vez será diferente, parece ser um fraco, sem poder de decisão, sem conseguir se desvencilhar desse sentimento e rejeitá-la de vez. Porém, a meu ver, é a menina má que é a fraca, que sempre recorre ao seu porto seguro, quando a máscara de invencibilidade cai. Quando precisa ter certeza do amor de Ricardo para se sentir confiante outra vez, ainda que desdenhando a adoração dele. Suas “breguices”, como ela costuma chamar. Diz-se incapaz de amar, mas não acredito que seja verdade. Para mim, a menina má é uma daquelas pessoas que não se permite aproveitar uma coisa boa por acreditar que é suja e não merecedora de um amor tão verdadeiro como o de Ricardo. Como uma espécie de autopunição se submete a todo tipo de loucura por achar que não merece ser feliz. Mas essa é minha visão da menina má! Pode ser que ela seja mesmo uma grande sádica que sente prazer em maltratar os homens e se sente renovada a cada personagem que cria para sua vida... Só acompanhando as páginas para avaliar!
Llosa criou uma estória que fica martelando em nossas mentes, mesmo depois de finalizada. Sentimos a dor, o sofrimento, a raiva, a angústia de cada personagem. Uma narrativa tão perfeita que nos conta com detalhes acontecimentos históricos, o panorama político e social de cada uma dessas épocas, mostrando a visão de Vargas Llosa, mas sem exageros e monotonia. De fato, a prosa do autor chega a ser invejável. Fluida, sagaz, prende o leitor do começo ao fim. Os outros personagens são encantadores e garantem passagens interessantes na vida dos protagonistas.
Mas é a menina má que permanece conosco. Talvez por que ela seja a inimiga secreta de cada mulher. Sejamos sinceros, que homem não gostaria de uma menina má lhe causando dor e paixão, incendiando suas vidas? E que mulher não tem um pouco de menina má dentro de si mesma?
Com a boca colada na sua eu pedi:
“Por uma vez na vida, diga que me ama menina má. Mesmo que não seja verdade, diga que me ama. Quero saber como soa, pelo menos uma vez. Não falou isso tantas vezes para tantos?
“Justamente – respondeu no ato sem piedade – eu nunca disse ‘gosto de você’, ‘amo você’ sentindo de verdade. A ninguém. Por que eu nunca amei ninguém, Ricardito. Menti para todos, sempre. Acho que o único homem a quem nunca menti na cama foi você.” – pag 102.
O Autor
Mario Vargas Llosa é jornalista, ensaísta, crítico literário e escritor consagrado internacionalmente. Nascido em Arequipa, no Peru, em 1936, ganhou notoriedade literária com a publicação do premiado romance A cidade e os Cachorros (1961). Mudou-se para paris nos anos 1960 e lecionou em diversas universidades americanas e européias ao longo dos anos.
Com uma vasta produção literária que inclui romances, peças teatrais, ensaios e memórias, o autor foi vencedor de vários prêmios de prestígio, inclusive sendo laureado com o Prêmio Nobel de Literatura em 2010.


8 comentários:

Lilian Sinfronio disse...

Como eu queria ler esse livro antes de ler sua resenha, sempre procurei uma promoçãozinha por ai pra poder faturar mais esse pra casa =]

Mas agora que li to DESESPERADA por esse livro, que resenha linda e que livro perfeito. Deve ser triste ¬¬ pq essa menina má é maior malzona mesmo (só pelo quote eu senti rsrs)

O que tenho do autor é o Pantaleão e as Visitadoras, mas ainda não li. Só li um livros com dois contos muito bons tb.

MEGA Parabéns.

Será que eu tenho um pouco de menina má? Ou sou toda bobinha kkkk

Paulinha disse...

Lilian,
Eu nunca vi nenhuma promoção desse livro mesmo... e acho que não rola porque já é antigo... Mas vou te falar: se tiver oportunidade, leia! é um dos melhores que já li na vida. por conta dele vire fã do Llosa e comprei todos os titulos dele já lançados no Brasil (aloka). ainda não li todos, mas chego lá.
Agora, cá pra nós... bobinha??? ahã... kkkkkkk

marla disse...

Parece ser interessante, mas não faz muito o meu gênero.
*bye*

loucaporromances.blogspot.com

Caio Neiva disse...

Já eu respondo sem pensar que meu livro favorito é "As travessuras da menina má".
Paula, me arrepiei ao ler sua resenha. Me fez lembrar o livro todo, que li há mais de 4 anos, foi como se tivesse lido ontem. Obrigado de verdade.
Lily é minha anti-heroína favorita, assim como Lisbeth Salander, da trilogia Millenium, é a minha heroína.

Thiago Felício disse...

Oi
Eu também sou igual a você: tenho dificuldades em favoritar livros.
E você tem um bom gosto incrível!
Mários Vagas Losa é de grande responsabilidade, afinal não é à toa que ganhou o Nobel.

Parabéns pelo post
Boa leitura

Abraço

papos literários
http://paposliterarios.blogspot.com/

Kiu disse...

Oi Paulinha,
Gostaria de oferecer este livro a um homem, mais não conheço seu gosto literário. Sei que é meu advogado , gosta muito de ler e de história. O que acha???

Paulinha disse...

Oi Kiu!
Olha eu sou suspeita pra falar desse livro por que acho ele maravilhoso. Mas meu marido também adora ele e acha que é um dos melhores que já leu. É um livro que mexe muito com a gente por que os personagens são muito fortes e tem atitudes que normalmente nos decepcionam. Não é nenhuma formula comum de felizes para sempre... é muito real. Mas acho que ele tem todos os ingredientes pra fazer sucesso entre o publico masculino. A única coisa que eu recomendo é que você veja se a pessoa curte mesmo leitura e se gosta de romances. O livro é gabaritadíssimo, tenho certeza que vc não erra se der pra qualquer pessoa que aprecie uma boa leitura.
Abraços,
Paula

Kiu disse...

Paulinha Boa tarde,
O que me indica para um amigo que faz aniversário, sei que gosta de ler porém não sei seu gosto literário. Ele ultimamente estava lendo Tempos muito estranhos. O que vc me sugere?

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