terça-feira, 3 de abril de 2012

Assistindo Livros: Jogos Vorazes

Em tempos onde todos os estúdios cinematográficos buscam uma “saga-campeã-de-bilheteria” pra chamar de sua, fica praticamente impossível ver uma adaptação para o cinema de alguma obra literária destinada ao público jovem, sem ter que se deparar com um sem número de comparações entre séries. Mas, como leitora assídua e cinéfila que sou, posso garantir que ser “o mais novo fenômeno mundial dos cinemas”, a famosa frase preferida dos marqueteiros, é uma das poucas coisas que Harry Potter, Crepúsculo e Jogos Vorazes tem em comum. Não que eu ache que as comparações desmereçam algum deles, só acredito serem injustas uma vez que se trata de obras tão distintas entre si, e acredito que cada uma tem o seu valor.  

O filme adaptado da trilogia de Suzanne Collins, campeã de vendas e sucesso de público e crítica, nos apresenta um mundo distópico num futuro não muito distante, surgido a partir do que um dia fora os Estados Unidos. Uma nação chamada Panem, formada por 12 Distritos comandados por uma Capital, que para exercer seu poder, criou os Jogos Vorazes. Uma espécie de reality show de sobrevivência, onde cada distrito tem que sortear e enviar um casal de adolescentes entre 12 e 18 anos para lutar até que só reste um sobrevivente! Toda a matança é registrada por câmeras e transmitida a todos os distritos pela televisão, com grande sucesso de audiência. A trama gira em torno da personagem Katniss, interpretada por Jennifer Laurence (indicada ao Oscar por O Inverno da Alma), que se oferece para ir no lugar da irmã de apenas 12 anos que teve o azar de ser sorteada.E pra completar ainda mais a situação, o outro sorteado é Peeta (interpretado por Josh Hutcherson de Minhas Mães e Meu Pai) o garoto com quem Katniss se sente em dívida por tê-la ajudado numa situação difícil no passado...

Eu particularmente estava com bastante expectativa em relação a Jogos Vorazes. Cada vez que imaginava o que podia “surgir” na visualização das páginas, me tremia toda! Li a trilogia há um bom tempo... logo que o primeiro livro foi lançado no Brasil, e torci muito para que quem comprasse os direitos da obra, se empenhasse em fazer um trabalho sério, fiel e bem produzido. Afinal, nada como um filme mal feito pra destruir a reputação de uma estória... E cá pra nós, Jogos Vorazes tem algumas partes que corriam sérios riscos de ficarem ridículas numa adaptação para o cinema...
Pois bem, minhas preocupações mostraram-se sem fundamento quando vi o nível de investimento feito, desde a escolha do elenco excelente até a caracterização dos personagens e ambientação da trama. Para uns um tanto brega, para outros, excêntrica. Eu achei completamente condizente com o que li. A personagem Effie, por exemplo, realmente é uma espécie de Lady Gaga do Tim Burton no livro. Em termos visuais acredito que a aposta foi muito bem feita, tanto em figurino, quanto nas discrepâncias entre a modernidade e riqueza da Capital em contraponto a miséria e atraso dos distritos. 
A direção de Gary Ross foi muito pontual. Desde o início do filme, retratando a protagonista em sua vida simples e insegura, com uma espécie de “câmera inquieta” balançando o tempo todo, até o acerto na “medida certa” de violência a ser mostrada. Claro que como leitora senti falta de mais brutalidade nas cenas dos jogos, mas entendo que na hora de sintetizar um livro, tem que haver um cuidado com a dosagem e acho que o acerto foi exatamente aí: não foi apelativo com excesso de sangue e pedaços de gente pra tudo quanto é lado e também não se excedeu na questão romance, o que é comum acontecer nessas adaptações. Enfim, o filme não foi reduzido ao patamar de uma estorinha de amor sobrevivente com triângulo amoroso, nem ao novo “massacre na floresta”. Digo isso, por que, a meu ver, a trilogia está muito acima desses aspectos! É uma obra com uma mensagem política e social fortíssima que mostra um governo que aliena seu povo com pobreza e ignorância, e usa o entretenimento como forma de coação e manipulação da sociedade; que é uma critica ao povo que se deixa envolver, acompanha e torce por um show de “realidade” forjada que mata seus próprios filhos; que prova que só é preciso um abrir os olhos e fazer sua parte para que sistemas absurdos sejam questionados e derrubados. (Qualquer coincidência com o mundo não-distópico atual, não é mera semelhança!)
Outro ponto forte no filme são as atuações! Jannifer Laurence foi a atriz que eu vibrei ao ser escalada para o papel e ela não decepcionou! Muito pelo contrário... Ela é a Katniss! Conseguiu transmitir o quanto a personagem é forte, batalhadora, bem intencionada porém turrona, endurecida pelas dificuldades da vida ao ponto de não saber como “ser simpática” ou ter traquejo social. Assim como suas flechas, foi certeira na incorporação do personagem. 
Josh Hutcherson brilhantemente conseguiu mostrar a evolução de Peeta, exatamente como no livro, de rapaz generoso fadado morte certa à descoberta de sua arma secreta que era seu carisma. Woody Harrelson captou tão bem a essência do “mentor bebum” Haymitch, que realmente é uma pena sua participação não ser maior. Aliás, acho que todos cumpriram muito bem seu papel. Até Lenny Kravitz conseguiu a proeza de ser Cinna, um personagem tão importante na trama, mesmo quando o roteiro falhou na evolução do relacionamento entre ele e Katniss.     
Aliás, a falha do filme na minha opinião foi onde eu menos esperava: o roteiro. Uma vez que a própria Suzanne Collins estava envolvida achei que esse seria o menor dos problemas. Mas o que pude perceber é que houve uma preocupação muito grande em construir a imagem de Katniss e deixou-se um pouco de lado a simbologia e alguns aprofundamentos que transmitissem a quem não leu o livro, a grandeza da estória. Os jogos são muito mais do que um reality show, ou uma forma de castigo anti-rebeliões... Katniss é muito mais do que uma adolescente tentando sobreviver... O tordo, a garota em chamas, o romance pré-fabricado... não tive certeza de que as mensagens implícitas foram devidamente transmitidas a quem não leu. Claro que dá pra entender o filme e toda a situação, o que por si só já é suficiente. Mas pelo que pude observar, ele deixa muita margem para indagações e má interpretações. Talvez seja algo proposital, para ser desenvolvido apenas na continuação. Ou talvez eu esteja sendo exigente demais. Mas, desculpem, como fã não posso evitar querer que TODOS captem as qualidades da obra em 2 horas e 20 minutos de filme! Entretanto devo ser justa e ressaltar que o roteiro acertou ao preencher as lacunas com cenas de bastidores dos jogos, além de conversas entre os “cabeças” sobre seu planejamento, uma vez que o livro é sob o ponto de vista de Katniss.
Para finalizar, posso assegurar que nada disso afeta o filme em si. Foi um trabalho muito bem feito, uma excelente opção de entretenimento inteligente e, que com certeza deverá ser aprimorado na sequência. Recomendadíssimo!

7 comentários:

Gleice Couto disse...

Gostei do filme. Ponto. É bacana... Mas, na vdd, o personagem que mais gostei foi o do Lenny Kravitz...HAHAHAHA Então, acho que isso quer dizer alguma coisa. Mas não li os livros, então não posso comparar. Ainda, entretanto, não entendo o frenesi ao redor da história. É boa, mas nada que me faça dizer uau! :)
Ah, e os takes tremidos e com ângulos de baixo pra cima me deixaram enjoada...rs :P
Beijoooos

Caçadora de Livros disse...

E frio na barriga, rs?
Se lendo eu ficava, imagina vendo as cenas.
Eu ainda não vi o filme, pois detesto aqueles "gritinhos", sabe?
E não sabia que o LK fez o Cinna. Que tudo! |º/

Taynah disse...

Então! Tava querendo assistir, mas já me disseram que o filme não é tão voraz quanto o livro. De qualquer forma, acho que vale o esforço, até pra ver se esse meu preconceitozinho com a história acaba.

palavrasdeumlivro disse...

Eu gostei muito do filme e achei uma adaptação muito boa, acho que a minha opinião se assimila a sua mais ou menos haha, e eu concordo com você quanto a ele deixarem um pouco de lado a simbologia e alguns aprofundamentos, e acho que por causa disso, algumas pessoas que não leram os livros, saíram meio confusas do cinema. Enfim, adorei a resenha.
Bjs

palavrasdeumlivro.blogspot.com

Bru Silva disse...

Eu amei o filme fiquei apaixonada, não vejo a hora dos meus livros chegarem para eu começar a ler, porque tenho certeza que vou gostar mais do livro, sempre acontece isso rsrs.
Parabéns pela resenha do filme.
Beijos

Equipe TriBooks disse...

Paula, minha chará ;P

Tô super doida pra ver este filme. Li somente o primeiro livro, mas os outros dois estão aqui e estou esperando "tempo" para ler. O enredo criado me encantou e quando vi comparações entre "Jogos Vorazes", "Crepúsculo" e "Harry Potter" percebi que eram jogadas de propaganda, porque elas se diferem, tanto que uma amiga minha foi assistir pensando que encontraria um filme romântico. Talvez essa propaganda cause uma falsa expectativa para aqueles que não conhecem o livro ou a história. Espero gostar tanto do filme, mas tenho certeza de que não mais do que amei o livro :D

Beijos,

Paula

http://tribooks.blogspot.com

@Tri_Books

Ka Alencar disse...

Adorei! Era exatamente isso que eu ia falar na minha postagem, que o filme deixou a desejar no quesito "entenda o que está passando aqui."
Quem não leu o livro ficou meio perdido sim, não sabia o que estava acontecendo, que época era aquela, pq tinham uns mais ricos que outros... A contextualização do ambiente ficou em falta sim, como também alguns outros detalhes.
Senti falta também de mais arena, os jogos foram muito rápidos.
A amizade entre Cinna e Katniss, a devoção de Peeta... enfim.. Gostei do filme, claro!
Mas é sempre assim com adaptações, quem leu os livros sempre acham que faltou algo.
Beijoooos
@K_Alencar
http://achoquecresci.blogspot.com.br

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