sábado, 25 de fevereiro de 2012

Assistindo Livros: Especial Oscar - Os Descendentes

A predileção de Alexander Payne de levar para as telas conflitos pessoais de personagens sem rumo de uma maneira nada convencional é interessante, mas confesso que nunca foi do meu agrado. As duas experiências que tenho com o diretor, Sideways e As Confissões de Schimidt não me impressionaram nem um pouco. Muito pelo contrário.  George Clooney, na minha humilde opinião nunca foi um ator lá muito versátil e até então nunca tinha conseguido se livrar da imagem de “Galã mais cobiçado de Hollywood”. Então, esse mix de Payne + Clooney foi meio caminho andado para que eu quase não desse a menor atenção ao filme Os Descendentes. Eu disse QUASE!
Acontece que uma adaptação de uma obra literária para as telas do cinema nunca é um trabalho fácil. E, já tendo lido um pouco sobre o romance da escritora havaiana Kaui Hart Hemmings, eu realmente quis conferir a capacidade do diretor de extrair humor de situações complexas e ainda assim mostrar uma estória bem contada.
Para minha surpresa, foi exatamente isso que aconteceu!
Nos primeiros minutos do filme, temos o protagonista Matt King, desmistificando em tom sarcástico a imagem de que morar no Havaí é como estar de férias o ano todo. A narração vem acompanhada de imagens urbanas, com todos os problemas de uma cidade normal. Nada de resorts, praias paradisíacas e surfistas por todos os lados. De fato, até tem tudo isso no filme (mesmo as camisas floridas), mas tudo em segundo plano.

Isso por que Matt está em um momento crucial de sua vida. Ele é um advogado que sempre colocou o trabalho em primeiro lugar e agora, sua esposa Elizabeth está em coma por conta de um acidente de lancha. A relação com suas filhas é praticamente inexistente. Ainda por cima encontra-se como responsável por decidir em nome da família pela venda de uma propriedade paradisíaca que é herança familiar, uma vez que são descendentes de uma linhagem de nobres havaianos e primeiros brancos a habitarem o arquipélago. Venda esta que deixaria os primos e ele próprio muito ricos, mas que destruiria uma das mais lindas paisagens, em prol de resorts internacionais ou Shopping Center ou coisa pior, atraindo a desaprovação da comunidade local. 
Em meio a tantos acontecimentos, Matt precisa fazer uma inversão de valores. Troca os dias enfiado no escritório pelos cuidados com as filhas em tempo integral. Novidade na vida de um pai que nunca teve que lidar com a rebeldia de uma filha adolescente e as tentativas de chamar atenção de uma filha de 10 anos. Cada uma aprontando conforme suas idades! Ao tentar recuperar o tempo perdido, Alexandra, sua filha mais velha faz uma revelação dramática que se torna a grande busca e aventura do filme. Não vou soltar spoiler e dizer do que se trata, mas posso adiantar que é uma reviravolta geral em tudo o que Matt acreditava.
Mas o grande lance do filme está exatamente aí, na maneira como todos os personagens lidam com a nova situação. O momento é trágico, mas pela imperfeição e realismo desses personagens, acaba criando situações patéticas que equilibram de forma certeira drama e humor. Acreditem, o filme traz um humor sutil e diálogos inteligentes no meio de um quadro que só piora a cada cena. 
Falando em personagens, devo reconhecer que George Clooney mostrou todo seu potencial de atuação nesse filme. Ele foi extremamente convincente no papel de homem comum, marido desesperado e pai tentando encontrar seu caminho. Deixando completamente de lado todo o charme e glamour que lhe é inerente para interpretar um personagem emocionalmente real.  Preciso ressaltar também um grande talento despontando: Shailene Woodley, que faz o papel de Alexandra, brilha representado com muita personalidade uma adolescente verdadeira, sem exageros no estereótipo. Na verdade o elenco todo é muito bom. Amara Miller que interpreta Scottie, a filha mais nova de Matt, faz um trabalho belíssimo. E há um personagem em especial que é responsável por muitas gargalhadas: Sid (Nick Krause), o amigo sem noção de Alexandra. 
Os Descendentes é um filme que não tem grandes truques, nem inovações. Ele é simplesmente isso: uma estória bem contada que faz com que você se identifique com os personagens, que são os mais reais possíveis, com problemas comuns e dificuldades que qualquer um de nós pode vir a ter. É isso que nos envolve na trama: ver tudo se desenrolar aos poucos, encaixando peças e reencontrando caminhos. Nada do que se pode imaginar de primeira: um drama familiar que numa cena final tudo se esclarece e todos ficam felizes... Os Descendentes é uma série de pequenos instantes que vão do aprendizado e crescimento dos personagens até as questões de perda e legado. 

Forte candidato ao Oscar de Melhor filme, não é meu favorito entre os concorrentes, mas sem dúvida, um grande filme!

3 comentários:

Thaddeus disse...

Diante de um saco de clichês hollywoodianos durante o ano todo esse filme me surpreendeu...adoro filmes que têm a pretensão de desmistificar. Não que acho que isso seja um trabalho tão difícil, basta ir contra o convencional, mas fazer isso com humor sutil e ainda mais usando clooney é sempre um risco godzillesco..mas uma vez tua crítica foi super pertinente..mas acho que clooney merecia reconhecimento ...pra mim foi sua estréia como ator..de verdade!

danamartins disse...

Acho que você conseguiu descrever bem o que o filme é. Eu nem achava nada do filme antes de ver, só não tinha tanta vontade assim, não é muito o tipo que me atrai. Mas tava em casa com a minha avó e passou o trailer na tv, parecia tão tranquilo que eu decidi baixar pra ver. Foi tão fácil conseguir o filme que eu assisti na mesma noite e achei mesmo bem tranquilo. Gostei como de forma sutil ele mostra a transformação :B

Thiago Felício disse...

Também não acho que ganhe. Sem muitas inovações...

Estou torcendo forte por The Artist


Muito boa a sua análise da película.

Bjo


Papos Literários

http://paposliterarios.blogspot.com/

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